Superprotetora?
Ocupadíssima? Do estilo desencanada? Nós conversamos com mães
cheias de histórias sobre suas diferentes formas de educar os
filhos.
Para fazer a reportagem "Afinal,
que mãe você é?" saímos em busca de muitas histórias para saber de
várias mulheres como é que elas se consideram como mães. Como
qualquer mãe sabe, falar sobre os filhos é fácil mas, dependendo do
que se conta, a revelação pode ser surpreendente. Aqui entre as
mães de CRESCER, muitas se achavam do tipo "desencanadas" e se
descobriram "superprotetoras", por exemplo. Ou vice-versa. A
jornalista Bartira Betini, mãe de Sofia, de 1 ano, e que nos ajudou
a encontrar estas mulheres, envolveu-se tanto com as histórias que
acabou repensando o jeito dela como mãe.
A seguir, o depoimento da Bartira e das outras mães que
participaram da reportagem. Se quiser entender já a descrição de
cada tipo, confira o teste "Descubra quantas mães ´cabem´ em
você".
A
JORNALISTA
"Readequei toda a minha vida por
causa da Sofia. Optei por trabalhar como free-lancer para ter tempo
de levá-la e buscá-la no berçário e poder ficar muito mais com ela.
Somos muito ligadas, mas mesmo com 1 ano e meio ela é uma criança
independente, pois fica no berçário desde os 5 meses. Foi a forma
que encontrei já que não consegui ninguém de confiança para deixar
minha bebê. Fazer essa reportagem e encontrar mães com dramas
semelhantes aos meus, dúvidas e incertezas foi muito marcante. A
gente sempre acha que está fazendo o melhor e quando alguns sinais
mostram exageros ficamos assustadas. No meu caso foi assim. Fiz o
teste. Meu perfil apontou para vários tipos: 35% superocupada, 35%
desencanada, 15% superprotetora e 15% controladora. Levei um susto!
Trabalho em casa para ter mais tempo e tento conciliar bem os
horários, mas, sou mesmo superocupada. E melhorar sempre é
possível!!!!", Bartira Betini, 35 anos, mãe da Sofia de 1 ano e 5
meses.
AS
MÃES SUPEROCUPADAS
"Nas duas vezes que engravidei, nem
esperei a licença-maternidade: voltei a trabalhar antes, com as
meninas ainda com 2 meses. Tenho uma empresa de móveis para
escritório, que tocava junto com o meu pai até o ano passado,
quando ele morreu. Agora ficou tudo muito mais puxado. Trabalho
regularmente das 7h às 19h, de segunda a sexta. Isso na prática,
porque é comum eu chegar em casa, dar um beijo nas meninas e ter
que acessar algum e-mail ou dar algum telefonema urgente. Parando
para pensar, eu trabalho mais do que 12 horas por dia. Tenho uma
empregada de confiança e mesmo correndo muito com encargos do
trabalho eu levo as meninas no pediatra e não abro mão de ir as
reuniões da escola. Às vezes viajo, mas volto no mesmo dia, nunca
pernoito, porque à noite não abro mão de ficar sempre com elas. Meu
marido diz que eu exagero quando o assunto é trabalho. Já cheguei a
levar a Ana Carolina comigo aos sábados durante alguma montagem de
peças de escritório", Luciana Manzano Calvente Perez, 36 anos,
empresária e mãe de Ana Carolina, 7 anos, e Natália, 6 meses.
"Sou do tipo que trabalha muito, se
preocupa muito, está sempre ocupada com uma coisa ou outra, mas
todas elas, de alguma forma, são voltadas para criar as melhores
oportunidades para o Rafael. Tento sempre ser uma profissional
melhor, uma pessoa mais antenada, uma mulher mais confiante, uma
amiga mais presente, uma filha mais amorosa, uma aluna mais
dedicada. Percebo que todo e qualquer esforço tem o objetivo de
passar valores ao meu ‘companheirinho de aventuras', porque
criança aprende com atitudes muito mais do que com palavras. Não
abro mão da minha profissão. Costumo dizer que sou workaholic por
natureza. Desde o nascimento do Rafa, resolvi que não trabalharia
mais fora para ter mais tempo com ele. Por isso trabalho em casa e
muito mais que antes: uma média de 12 horas por dia. Porque ele
dorme, eu trabalho. Ele está na escola, eu trabalho. Ele está em
casa vendo televisão e eu trabalho. Distraio ele e estou de olho no
e-mail. É uma rotina intensa", Carolina Caires Coelho, 29 anos,
tradutora de livros e mãe de Rafael, 5 anos.
AS
MÃES SUPERPROTETORAS
"Na primeira gravidez, tive
toxoplasmose e anemia profunda. Por conta disso, tinha contrações
que davam a impressão que a Yasmin nasceria com três meses de
gestação. Já a gravidez do Miguel foi muito tranqüila, mas não pude
trazê-lo para casa: ele ficou internado uma semana com icterícia.
Depois, a partir dos seis meses, ele ficava internado
constantemente com bronquiolite. Então sempre vivi com o medo de
perder meus filhos. Eles não dormem na casa de amiguinhos e quando
estão na escola ligo de três a quatro vezes por dia. Sair sozinho
sem ser comigo ou meu marido, nem pensar! A Yasmin dormiu uma única
vez na casa da minha irmã e eu chorei feito criança. Prefiro que
eles façam passeios que eu sempre possa estar junto. O pediatra diz
que preciso deixá-los mais soltos, cair e levantar sozinhos, mas eu
nunca deixei. Se eles caem, eu sou a primeira a ajudá-los. Se eles
não querem comer sozinhos, eu dou na boca, pois minha atenção é
100% deles. Por isso também que hoje trabalho como manicure. O
dinheiro diminuiu, mas os cuidados com eles não tem preço. Ninguém
cuida melhor do nosso filho que a gente mesmo", Micheli Lima Correa
Magno, 28 anos, manicure e depiladora e mãe de Yasmin, 4 anos, e
Miguel, 3.
"Desde o nascimento da minha primeira filha sou uma mãe
superprotetora. Estou sempre por perto, observando, muito mais que
interferindo. No caso da Jéssica, por exemplo, é comum ouvir uma
conversa ou outra pessoal dela com amigas em casa. E confesso que
tem hora que solto um ‘alto lá, isso não pode ser desse
jeito', mas é raro, eu juro... Outra coisa é que nunca viajei com
meu marido sem meus filhos, e também nunca os deixei com minha mãe
para sair à noite. Eu não me arrependo, pois meus filhos são tudo
pra mim, minha razão de viver. Meus passeios são aqueles que eles
podem me acompanhar. O simples pensamento de que eles podem sentir
minha falta nem que seja por algumas horas me desespera. Hoje faço
ginástica, mas foi um processo longo para eu conseguir desenvolver
uma atividade que não envolva eles. E só consegui porque escolhi um
horário que eles estão dormindo. E como a academia é bem próxima de
casa, consigo chegar há tempo de qualquer um dos dois acordar",
Giovana Aparecida, 31 anos, professora e mãe de Jéssica, de 10
anos, e de José Roberto, de 3 anos.
AS
MÃES TERCEIRIZADORAS
"Até os 3 anos de idade, cada um
tinha uma babá para dar conta da demanda que é criar trigêmeos.
Hoje temos uma só que cuida dos três, mas em período integral. Ela
também leva e busca nas atividades extras e eventualmente corre com
eles ao pronto socorro, para eu chegar em seguida. Os meninos fazem
judô à tarde e a Clara faz balé. Logo eles vão começar na
fonoaudióloga. Percebo que fica mais simples o dia a dia quando
você terceiriza os serviços, pois mesmo que eu quisesse não daria
conta de fazer tudo com eles. Fico preocupada, tento ser presente o
maior tempo possível, mas preciso de tranquilidade para poder
trabalhar. E colocá-los em várias atividades preenche o tempo
deles, o que acho importante. Não sofro porque os deixo para fazer
alguma atividade pessoal. Vou, ligo, administro, confio e volto com
mais saudades ainda, o que é extremamente saudável, pois os tempos
nas relações nos fazem valorizá-las e com filhos não é diferente",
Maria do Socorro Frerichs, 47 anos, assessora jurídica e mãe dos
trigêmeos Noberto, Clara e Roger, 4 anos.
"O João Pedro fica com a babá desde os 5 meses, pois voltei a
trabalhar após a licença maternidade e um mês de férias. Em 2009
ele começou a ir à escola e este ano a rotina ficou mais intensa:
faz inglês, fonoaudióloga e judô. Todas essas atividades são
acompanhadas pela babá, que leva e busca. Como fico muito tempo
longe, escolhi uma babá, uma escola e prestadores de serviço que eu
confio plenamente. Dificilmente falto no trabalho ou chego mais
tarde porque ele teve uma febrinha ou uma simples virose. Eu
acredito que isso faz parte do desenvolvimento da criança e eu
terceirizo para ter a tranqüilidade de que alguém está cuidando
dele. Claro que com o meu monitoramento. Se a febre aumenta, aí sim
é motivo para eu intervir e acompanhar ao médico, mas a babá sempre
vai junto porque sabe detalhes da rotina que eu não sei. A criança
não precisa ser cuidada 100% pela mãe. Prefiro ter menos tempo
junto, mas com mais qualidade", Magali Regina de Souza Marin, 39
anos, economista e mãe de João Pedro, 3.
AS
MÃES CONTROLADORAS
"Tenho uma grande preocupação em
estabelecer rotina e meus filhos têm horário certo para dormir.
Posso até negociar se for sexta-feira, mas durante a semana não dá.
A Maria Eduarda entende melhor o que pode e o que não pode,
enquanto o Bernardo exige rigidez nas regras. É complicado dar
muita liberdade nesta idade, pois eles já estão começando a
questionar a autoridade dos pais. Eu tento escutar e até certo
ponto tem que conversar, mas existe um limite em que regra é regra.
Para conseguir manter a rotina básica, não dá para flexibilizar.
Eles estão sempre testando os pais. A mais velha queria poder sair
da escola na hora do intervalo, mas é o segundo ano que eu não
autorizo e ela fica chateada, porque algumas amigas já saem. O meu
pequeno apronta bastante, me desafia, e muitas vezes é na base do
‘não, não e não', de colocar de castigo e deixar sem um
brinquedo por um tempo. Acaba sendo o ‘não' e ponto, pois ele
se acha cheio de poder", Bibiana Gastal de Magalhães, 34 anos,
psicóloga e mãe de Maria Eduarda, 7 anos, e Bernardo, 4.
"Eu procuro colocar os limites com tranquilidade. Há momentos em
que os filhos testam você, mas é preciso calcular a intensidade.
Mostrar quem está no comando da relação passa segurança e deixa
claro qual é o espaço deles. Do contrário, eles ficam inseguros e
perdem a referência de até onde pode ir. Lá em casa fazemos os
combinados. Eu acho importante não desperdiçar, então não os obrigo
a comer se não têm apetite, mas tudo que é colocado no prato
precisa ser comido. Este combinado se estende aos brinquedos: só é
para pegar aquilo que vai usar de fato. Se você explicar o motivo
das regras ela vira um combinado. O videogame, por exemplo, só pode
jogar depois que a lua está no céu. O dia é para ser aproveitado de
outro jeito. Também preciso administrar a diferença de idade, pois
a Valentina já tem mais autonomia e pode fazer algumas coisas que o
Oliver ainda é muito pequeno para fazer, ainda que ele queira
imitar a irmã", Daniela Schmitz, 41 anos, publicitária e mãe de
Valentina, 6 anos, Oliver, 3.
MÃES
DESENCANADAS
"Quando fiquei grávida da Julia,
parei de trabalhar e estou esperando ela crescer um pouco para
voltar. Com três filhos, é preciso relaxar para conseguir dar conta
de tudo e não pirar. Com o Bruno eu era protetora demais, não
deixava ele fazer nada. Mas depois que a Catarina e a Julia
nasceram, eu relaxei e agora deixo eles fazerem tudo. Deixo eles se
sujarem à vontade, não ligo. Tem uma parede da cara em que eles
podem fazer o que quiserem, então pintam com tinta e com giz de
cera, fazem desenhos e até um brinca de pintar o outro. Eles
brincam bastante fora de casa, no quintal, com mangueira de água
quando está calor. Às vezes eu derreto chocolate para fazermos
pirulito juntos e só troco a roupa deles na hora de sair, assim não
tem stress e eles não saem de casa sujos. Meus filhos têm uma
alimentação super boa, comem bastante fruta, então esse trabalho eu
não tenho. E se eles falam que não querem comer verdura, por
exemplo, eu não ligo e deixo um dia ou outro", Fabiana Primerano
Romero, 31 anos, comerciante e mãe de Bruno, 4 anos, Catarina, 3 e
Julia, 9 meses.
"Eu delego bastante, pois acredito que os filhos são do mundo. Eles
têm que ter responsabilidades e entender que podem contar comigo
para tudo, mas que podem contar com outras pessoas e inclusive
consigo. As regras mudaram e hoje em dia precisamos ter bom senso.
Não sou rígida com horários, porque se um dia eu chego mais tarde
do trabalho quero poder jantar com eles, por exemplo. O que eu mais
cobro deles é responsabilidade e independência, no sentido de se
cuidar, arrumar a mochila da escola, entregar os bilhetes da
professora, porque eles têm que entender que a mãe não vai olhar e
cuidar o tempo todo. Quando o Roberto e o Tomás brigam, minha
primeira reação é não interferir e deixar que eles tentem se
resolver. Sempre peço a solução para eles. Se eu colocar a minha
palavra, eles vão questionar e achar que estou impondo", Renata
Cantoporto, 34, publicitária e mãe de Roberto, 9 anos, e Tomás,
7.
Por : Cristiane Rogerio e Fernanda
Carpegiani
Comentários